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Seminário 230 anos de Campinas

Debate - Questões Apresentadas pelo Público

Professora Doutora Maria Adélia Aparecida de Souza

Eu conhecí o Pinho quando trabalhei no Serfau, e gostaria de falar primeiro porque eu ví aquí um pouco a história de minha vida, fui funcionária do Serfau e trabalho com planejamento urbano e com política urbana ha mais de 40 anos e não poderia deixar de me manifestar e atender a provocação da mesa, sem falar em Sarah e Ari que nos conhecemos de longa data.

Chamo a atenção dizendo que a mesa poderia ser mais variada, há 4 arquitetos e um engenheiro é um pouco demais para a gente não apontar. Já que o planejamento é interdisciplinar... Mas isso tem uma história e uma razão de ser, e aí vai o primeiro, ponto a professora Sarah Feldmann não apontou a hegemonia do poder dos arquitetos no processo de planejamento brasileiro, e é devido a eles muitas das tragédias que acontecem no planejamento urbano brasileiro, eu acho que a autocrítica é um ponto fundamental nesses tempos de mudança, tanto é que ela deu alguns saltos na sua fala, mas acho que o brasileiro precisa aprender a debater e perder o falso pudor, porque isso não leva a nada e nem ao amadurecimento das coisas.

A professora Sarah falou do Cerfal, o Pinho também. O Cerfal não foi nenhuma instituição definidora de metodologia, era um agente de um fundo de financiamento tão simplesmente, e dentro dele tínhamos contradições imensas, em pleno regime militar do governo Médici ,de companheiros ilustres, que procuravam brigar para fazer uma diferença, que eu gostaria que a Sarah retomasse, que ficou um pouco confusa na fala da Sarah, que é a seguinte: a influência americana foi grande nos processos de gestão municipal, mas não no urbanismo

O urbanismo vai Ter uma influência imensa da Europa, seja dos ingleses com a chegada do Parker, em final do século 19, e depois a Carta de Atenas que está até hoje na cabeça do povo que está no Ministério da Cidade. Este aborto da natureza do meu ponto de vista.

Estou aqui para provocar ainda mais. Sarah, você não falou do Cepam que é um organismo importantíssimo da administração pública, do planejamento brasileiro que com todos os seus equívocos nós temos que exaltar. Ele é responsável pela modernização da gestão municipal e ainda mais responsável pelo combate ao Ibam e seu processo americanização. E você também se esqueceu da Sagmax, do Padre Lebret pioneirismo no planejamento urbano brasileiro de cuja gangue eu tenho a honra de fazer parte, porque fiz parte do embate contra a americanização planejamento brasileiro.

Acho que não podemos nos esquecer que este país teve uma primeira política urbana que o povo do Ministério da Cidade também se esqueceu, que é muito mais importante, lamentavelmente feita no época do regime Militar, mas muito mais consistente do que as baboseiras que se faz hoje no discurso sobre as políticas das cidades no Brasil.

Eu fico muito críticas porque os meninos e as meninas que hoje mandam na política urbana do Brasil foram meus alunos e tenho obrigação de lhes dizer isso .

E também digo isso, porque a mesa citou muito a palavra território, nós vamos espero, poder discutir isso na próxima reunião, é preciso que se compreenda que quando se fala a palavra território se está falando de política. Não podemos mais usar a palavra território como sinônimo de urbano, de cidade, precisamos aprofundar um pouco mais o rigor conceitual das coisas, porque senão vamos continuar a reproduzir as besteiras que nós os planejadores fizeram no passado.

Mas eu acho que elas foram menores do que as que se fazem hoje, porque hoje há um viés setorial pesado, uma metaforização das coisas da cidade pesadas, inclusão social, desenvolvimento sustentável e outras tantas baboseiras que muita gente acredita e que acha que a partir daí, o povo efetivará a sua participação social e é somente com ele, como diria Milton Santos, que nós poderemos entrar no período popular da história que aí está e que não admite brincadeiras.

Campinas tristemente é uma cidade que foi abandonada por suas elites, corrompida por seus profissionais e é por isso que está como está. Campinas não se deu ao luxo de pensar num conceito seu como cidade, que não pode ser vista só do ponto de vista da mobilidade. Se eu levasse as últimas conseqüências a discussão sobre a mobilidade qualquer perspectiva de avançar a fluidez do território eu estaria favorecendo e em muito o processo capitalista.

Eu acho que poderíamos aproveitar essa chance que a Administração Municipal de Campinas nos dá e perder o pudor e discutir as coisas dessa maravilhosa cidade, mas tão abandonada cidade, como disse o Ari, é um crescimento desenfreado. É uma cidade que não tem norma, é uma cidade sem lei constrói-se coisas nas praças, atropelam-se as pessoas, corredor onde não precisa e onde precisa não tem corredor. Lotes vazios e uma renda abandonada imensa que poderia efetivamente estar a serviço de uma imensa população pobre que essa cidade tem e terá mais como terão a maioria das metrópoles brasileiras.

O tom é para responder a provocação e para dizer que a mesa comigo atingiu plenamente o seu objetivo.

Quero dizer também que não se pode falar da questão urbana brasileira sem fazer referência ao IBGE, que é promotor de estudos urbanos fundamentais que todo mundo esqueceu. Nem tudo que aconteceu no regime militar e durante o governo militar foi ruim, porque muitos de nós democratas estávamos trabalhando com muita seriedade. Não vou defender o Regime Militar que eu combati, mas acho que é preciso refinar a discussão porque o país não foi morto pelo Regime Militar, muito pelo contrário nós é que derrubamos o Regime Militar.

Eu queria agradecer esta oportunidade, eu teria mil coisas a discutir, o PUB, o Gegram e outra coisa que acho muito complicado é discutir a cidade no seu sentido estrito, eu comecei um projeto de pesquisa pesquisando Campinas, mas consigo mais me conter em Campinas, eu preciso falar da Região Metropolitana de Campinas que também não termina nela mesma.

Eu prefiro então, usar o conceito do meu amigo Milton Santos, da metrópole corporativa e fragmentada, que essa sim vai explicar as interessantes questões colocadas no debate, e que eu respondo a minha moda, como caipira da baixa mogiana que sou e espero morrer assim.

Obrigada.

Sarah Feldmann comenta a intervenção da professora Maria Adélia

Eu gosto das tuas provocações.

Primeiro - Eu falei sim da hegemonia dos arquitetos, que o IAB teve uma atuação intensa para conquistar o espaço no campo do planejamento e isso nos anos 50 e 60 foram muito atuantes e falei também que nos órgãos de planejamento eles, os departamento de urbanismo e coordenadorias de planejamento, qualquer um dos nomes que eles tenham assumido eles são prioritariamente ocupados por arquitetos. Isso eu falei e tenho plena consciência da responsabilidade dos arquitetos.

Segundo - O Serfal tinha o fundo de financiamento e atuou sim na assistência técnica os municípios, ele promovia cursos, publicava boletins de orientação aos municípios e às empresas de consultoria, eu pesquisei esse material. Teve sim muita influência americana no urbanismo, o paradigma do Plano Multidisciplinar abrangente a todos os problemas da cidade que já incorpora o zoneamento, que já é uma característica, o zoneamento vai entrar no plano, era o Regional Plan de New York feito entre 29 e 32. A unidade de vizinhança que é uma interpretação americana do urbanismo inglês do Haward ele é parâmetro até hoje. A lei de parcelamento é calcada na idéia de unidade de vizinhança, os planos desde os anos 50 que eram feitos pelos escritórios de arquitetos, pelos engenheiros, as cidades novas, a unidade vizinhança era o grande consenso e o zoneamento americano foi o modelo utilizado. Todo o princípio do primeiro zoneamento americano 1916 de Nova York. Então tem uma influência americana no urbanismo e na estrutura administrativa, na gestão.

Desculpe, eu não falei do Cepam e da Sagmax, foi uma falha minha. A idéia era falar dos outros órgãos. Agora vou fazer o mea culp. A Sarmax ela desenvolve os estudos nos anos 50 (instalada em 1947), para várias cidades brasileiras, e em São Paulo o estudo da Sagmax que é feito em 1957, ele não vai ser absorvido em nada, na verdade os efeitos da Sagmax dentro dos órgãos de planejamento vão acontecer nos anos 70, que é toda a geração que trabalhou na Sagmax enquanto estudante que vai entrar nos órgãos de planejamento a partir dos anos 70. Aí a Sagmax vai formar o pessoal que vai saber fazer pesquisa, vai constituir todo um saber sobre o conhecimento da realidade urbana. Forma pessoal em São Paulo, em Belo Horizonte, no Nordeste, no Recife vai ter o Baltar que será uma importante figura, me desculpe não ter falado da Sagmax e do Cepam, mas a intenção não era esgotar o assunto.

Eu acho que o Serfal foi muito pouco estudado, está se começando. Se sabe muito pouco, o que estou vendo é que de fato as empresas de consultoria absorveram muitos profissionais que estavam cassados, que estavam com problemas políticos, então tinha uma massa crítica trabalhando no planejamento dos anos 70 que não tinha nada a ver com o Regime Militar, portanto a história do Serfal ainda tem que ser estudada.

Pinho comenta a intervenção da professora Maria Adélia

Quando fui convidado para participar do debate e falar sobre o PPDI de 70, fiquei pensando Maria Adélia, o que querem com alguém que viveu tão lá que tentou pensar Campinas há 30 anos atrás, e fico feliz com as colocações que foram feitas aqui na mesa, quando você fala do Serfal com toda essa garra, que é uma prática infelizmente no nosso país é que determinadas coisas porque aconteceram num determinado momento da nossa história deixam de ser importantes e aí esses órgãos acabam sendo fechados. Como exemplo temos do BNH, da Sudene, do Serfal, do Planejamento em Campinas, que a partir de 72 deixou de existir por um longo tempo. Houve um prefeito que achava que não precisava de planejamento em Campinas, o planejador seria ele.

O planejamento deixou de existir até como um órgão dentro da estrutura organizacional da Prefeitura de Campinas. Nós temos que parar com essas rotulações seja porque ela aconteceu num determinado momento da nossa história o que se fez naquele momento não serve, não prestou, não pode servir de ensinamento para outras gerações.

Eu diria ao arquiteto Ayrton que no PPDI fala em transporte de massa, fala em metrô. Foi o plano de transporte fase 1 que em função dos estudos de viabilidade em Campinas, em função do seu potencial que essa questão de alguma forma foi abandonada em seguida.

Eu fico feliz com a fala da professora Sarah que nos deu uma aula de urbanismo e que coloca em determinado momento que se o órgão de planejamento vai ficar staf do prefeito como órgão da estrutura da organização municipal, ou se vai ficar isolado para fazer a parte somente do urbanismo e não ter nenhuma ligação com o que está acontecendo. Eu acho que tem de haver um meio termo em que é possível se pensar nessas questões.

Ao Ari eu diria que o PPDI estimou para 1990 uma população por hectare de 50 habitantes. Portanto esse plano pode trazer questões que poderiam hoje, de fato ser recuperadas.

Alair consideração sobre o Plano de Transportes.

Temos que entender que de 1981 a 1983 foi executado algum planejamento de transporte do qual resultou a preservação até hoje da massa de leitos ferroviários desativados, através de decreto e iniciativas do Governo Municipal e que hoje permite que a gente tente buscar um sistema estruturador de transportes. Isso de certa forma foi planejado de maneira desconectada entre a Secretarias de Transportes e Planejamento, e acho que era exatamente esse vínculo que estava faltando que está sendo buscado nessa Administração de tentar pensar a cidade não desvinculado o uso do solo do sistema de transportes e do sistema de planejamento.

O objetivo desses encontros é exatamente o que o doutor Pinho acabou de colocar mostrar que através do entendimento de tudo o que aconteceu em termos de planejamento urbano na cidade de Campinas, possui história, para que possamos a partir de agora começar a discutir a cidade que a gente pretende para os próximos anos. Aprender com tudo o que aconteceu de falhas e de acertos com os Planos anteriores para que possamos desenvolver o planejamento urbano da cidade de Campinas.

(*)Texto compilado dos registros das apresentações.

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