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Cemitério da Saudade

Oferecendo abrigo para os restos mortais de moradores de Campinas desde o final do século 19, o Cemitério da Saudade não é apenas um repositório de recordações, tristeza e fé. Tombado como patrimônio cultural da cidade em novembro de 2003, o cemitério lista um acervo de pequenas e grandes obras, expressivas das representações que a arte produziu durante uma década como ideal religioso em torno da morte. São jazigos e capelas adornados por estátuas forjadas em material nobre, concebidas geralmente dentro de um academicismo refinado, que têm nas mãos do escultor Lélio Colluccini seu principal realizador.

Primeiro cemitério público do País, o Cemitério da Saudade incorporou em 1881, ano de sua inauguração, os quatro cemitérios então existentes na cidade, todos propriedades particulares. Eram eles: o Cemitério do Santíssimo, destinado aos brancos católicos da cidade; o Cemitério São Miguel e Almas, para os negros católicos; o Cemitério dos Protestantes, e um outro, sem nome, onde se enterravam as vítimas da febre amarela. Os restos dos negros não católicos iam para o chamado Campo da Alegria, de cenário muito simples: apenas um repositório necessário para o corpo, já que a alma buscaria seu conforto ao retornar imediatamente para África-mãe.

Foi o campineiro Ferreira Penteado quem doou parte de suas terras para a construção do novo campo. As terras foram meticulosamente loteadas para que o novo cemitério pudesse manter na morte a segmentação social que determinou a sorte dos vivos. E os quatro cemitérios reproduziram seus enunciamentos sociais no novo espaço. Os políticos, os barões do café e os comerciantes tiveram seus corpos sepultados no trajeto da alameda central, caminho que, da entrada imponente do cemitério, conduz até a única capela do local, não menos sofisticada. Ela também foi doada por Ferreira Penteado que embutiu na construção o maior mausoléu do cemitério, onde jaz seu corpo. Coube aos outros campineiros mais pobres, subalternos ou não católicos, o destino de sepulturas simples e lineares para acomodação de seus restos mortais, localizadas em áreas longínquas ao eixo central.

Para percorrer os caminhos silenciosos da Saudade, guiado por essa perspectiva histórica, é importante perceber especificidades, como a estrutura urbanística rara para a planificação de cemitérios, que dividiu o espaço em eixos, semelhante ao traçado de uma cidade planejada. Nesse passo, o observador vai perceber também os sinais das 19 ampliações que o cemitério sofreu a partir da década de 30 até os anos 60; atrativos que se integram aos bens tombados. São eles: o pórtico da entrada e os muros laterais, concebidos por Ramos de Azevedo; o cruzeiro de 1915, doado pela primeira fundição da cidade, a Cia MacHardy; o Monumento túmulo ao Soldado, com referência à participação paulista na Revolução Constitucionalista de 32 - obra do escultor Marcelino Vélez; o prédio da Administração, antigo necrotério, construído em 1889 por Ramos de Azevedo; o eixo principal, seu piso e suas palmeiras; a Capela edificada por Ferreira Penteado e as outras oito capelas - túmulos de antigos barões do café; o ossário, obra de Ricardo Badaró; além do campo de Exu, destinado a rituais religiosos.

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