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Profissionalismo e paixão movem trabalho de Lili, a bióloga do Bosque


23/11/2012 - 10:06




Renan Costa

 

A maioria das pessoas trabalha pela necessidade de sobreviver, mas muitos profissionais são apaixonados pelo que fazem. Este é o caso da bióloga e zoóloga Eliana Ferraz, coordenadora do Zoológico do Bosque dos Jequitibás. A coordenadora - conhecida por todos como Lili - está na Prefeitura Municipal de Campinas há quase 27 anos e há quinze no Bosque.

 

Nascida e criada aqui, Eliana se formou em biologia pela PUC de Campinas em 1991 e retornou aos estudos para fazer mestrado em 1995. Em dez anos, concluiu mestrado e doutorado em zoologia, na Unesp de Rio Claro, interior de São Paulo.

 

Além de toda sua experiência no Bosque, Eliana fez estágio no Zoológico de Brasília e trabalhou no Projeto Tamar, realizando uma grande temporada de estudos com tartarugas marinhas. Depois estudou tubarões, com especialização em reprodução e vida livre. Como sua paixão mesmo é o manejo de animais em cativeiro, seu mestrado foi baseado no estudo de lobos-guarás em campo, focado em ecologia alimentar e dispersão de sementes, para conhecer melhor como vivem os animais livres e poder tratá-los da melhor forma possível quando em cativeiro.

 

No doutorado, Eliana estudou as cotias soltas do zoológico do Bosque. O trabalho foi premiado internacionalmente em 2009. “Isso aqui é minha vida. Meu negócio é bicho”, diz Eliana, que às vezes chega a passar 14 horas no Bosque num único dia.

 

A zoóloga, além de possuir trabalhos publicados nos EUA e Inglaterra, está terminando um livro sobre 'Ecologia e Conservação do Lobo Guará', em conjunto com Adriana Consorti, professora em uma universidade da Inglaterra que também trabalhou com lobos no Brasil.

 

As especialistas então reunindo experiências de pesquisadores do Brasil e do mundo todo que trabalharam e trabalham com animais tanto em cativeiro como ao ar livre. A partir daí estão - há um ano - produzindo o livro, que será publicado no começo de 2013 pela CRC, editora pertencente a grupo americano especializado em livros e publicações relacionados às ciências em geral.

 

A área de atuação de Eliana é a zoologia com especialização em bem estar animal, estudando seu comportamento e enriquecimento. O enriquecimento pode ser de cinco tipos: alimentar, cognitivo, físico, sensorial e social. O objetivo é trazer bem estar aos animais por meio da mudança de rotina e consiste em, por exemplo, oferecer brinquedos nas jaulas dos animais.

 

Outro tipo de enriquecimento é oferecer comida da maneira como o bicho o encontraria na natureza. No caso da arara, por exemplo, duas vezes por semana é oferecido coco para que o animal possa manipular e quebrar a casca, o que ajuda a afiar seu bico. Também existe o enriquecimento cognitivo, feito com uma caixa que o animal tem de manipular para encontrar o alimento.

 

Dedicação

 

A paixão da bióloga pela flora e fauna é antiga. Quando criança, o avô costumava levar Eliana e sua irmã ao Bosque e ao Parque Portugal. “Eram meus lugares favoritos. Em vez de ganhar bonecas, ganhava sempre de minha mãe bichos de pelúcia. Eu amava”, afirma a zoóloga que em casa cria nove gatos.

 

Para a bióloga, todo dia é um novo dia, repleto de surpresas e novidades e é exatamente assim que gosta de trabalhar. “Às vezes estou em algum lugar com amigas e falo que vou voltar ao Bosque pois estou cuidando de animais que precisam ser alimentados à mão. Pensam que sou louca”, afirma.

 

Já tive momentos de levar para casa filhotes de aves como bem-te–vi, tucano, pica-pau e até gambazinho para que eles não passassem muitas horas sem comer, porque é possível que eles tivessem baixa de energia com risco de morte”, afirma a especialista.

 

Receber ligações da Polícia Ambiental ou Ibama pedindo apoio para receber animais ou então chamados da população sobre bichos andando na fiação elétrica fazem parte do cotidiano no zoológico do Bosque dos Jequitibás. “O maior desafio de vir trabalhar é a surpresa de não saber o que esperar”, afirma.

 

Aos domingos Eliana vai três vezes ao Bosque dos Jequitibás. Pela manhã faz seu plantão, volta às 13h e vai embora e retorna novamente no fim de tarde. “Se quiser cuidar e criar o filhotes, eu tenho que ir. Não tenho coragem de abandoná-los.”

 

A grande família

 

Para a bióloga, o Bosque é sua segunda casa. Com cerca de 300 animais entre aves, répteis e mamíferos como anta, veado, leões, macacos, hipopótamos, onça entre outros, o mais velho dos bichos é a “Carioca” hipopótamo fêmea, com 46 anos.

 

O mais novo é a lontra “Raí” (nome dado em homenagem ao ex-jogador do São Paulo). Eliana batiza praticamente todos os animais novos que chegam no Bosque com nome de amigos, familiares ou de personagens ilustres, como por exemplo o hipopótamo “Dinho”, de Ronaldinho, que tem 8 anos e que chegou ao Bosque na penúltima Copa do Mundo, em 2006.

 

Alguns animais do zoológico permanecem soltos no Bosque, como cotias e o bicho preguiça. Este último, por exemplo, é um animal que não come qualquer tipo de alimento, apenas alguns tipos de folhas, como as da embaúba e da sibipiruna. “Não é um bicho que você pode dar chicória, por exemplo”, diz a bióloga. O animal é super específico e possui uma dieta especial. “Pode-se notar que em cativeiro quase ninguém tem bicho preguiça. Quem cria é porque pegou desde pequeno e o acostumou”, afirma Eliana.

 

A preguiça possui esse nome pois o animal é lento: seu metabolismo e digestão faz com que ele desça da árvore para defecar apenas uma vez na semana. “A temperatura é bem abaixo da de um mamífero normal. Mas quando o animal quer, ele pode nadar rápido, por exemplo”, conclui.

 

Temperamento

 

De tanto conviver com os animais, Eliana conhece como ninguém o humor dos bichos, que varia entre as espécies e conforme a idade. O Negão - onça preta - por exemplo é bem velho: tem 22 anos e gosta de ficar na dele, mais sossegado. Mas Eliana diz que todos tem sua simpatia e cada um possui seu jeito de ser. Os mais velhos, por exemplo, tendem a ser menos simpáticos e receptivos. “Quando eu chamo a onça, ela só me atende se quiser. As iraras (Alaor e Jade) e a lontra são mais divertidas. Cada animal tem sua particularidade”, conta. Iraras são da espécia dos mustelídeos, parentes da lontra.

 

Por incrível que pareça, Eliana tem medo de apenas um animal, a mariposa. “Tenho pavor de mariposa. Mas nem por isso eu mato, pelo contrário, eu respeito e apenas peço pra alguém tirar, ou me retiro do local”, resume.

 

Fora o inseto, os animais são sempre familiares para a profissional, como o papagaio Pitt Bull, a lontra Jãojão, as corujas que se aproximam com facilidade e as antas. Estas últimas – na opinião da zoóloga – são bichos contra os quais as pessoas normalmente têm preconceito. “As pessoas acham a anta feia. Eu não consigo achar nenhum bicho feio”, afirma.

 

Outro fato curioso citado por Eliana é o recebimento de cartas e ligações para o Bosque no qual a população relata a presença de corujas, morcegos e outros bichos ao redor de residências. “As pessoas às vezes ligam, aí levantamos um histórico da situação.”

 

Ela lembra da história de uma coruja que, à noite, piava em uma residência e a pessoa não queria que o animal fizesse barulho e, consequentemente, atrapalhasse o sono do cidadão. “Tive de explicar à pessoa que o bicho é protegido por lei, que ele está em vida livre, entre outras coisas”, explica a zoóloga.

 

Mas para a zoóloga, apesar das pessoas que reclamam dos animais livres, sempre acontecem fatos gratificantes que demonstram o respeito pelos bichos silvestres. “Acredito que existe uma minoria que tem uma visão unilateral de se incomodar com a fauna. A maioria das pessoas gosta dos bichos, principalmente as crianças”, diz.

 

Bosque

 

Segundo a zoóloga, as pessoas normalmente pensam que a atribuição do zoológico é de capturar e prender animais – o que não é verdade. O zoológico do Bosque do Jequitibás, possui o plantel (cativeiro) próprio, no qual a destinação dos animais é feita por meio de instituições como o IBAMA, Policia Ambiental, ou a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

 

O Bosque dos Jequitibás também conta com um Centro de Biologia e Veterinária, no qual são feitas cirurgias. Há também o laboratório de micologia – onde são realizados inúmeros exames. Com 100 mil metros quadrados, o Bosque possui uma reserva florestal de Mata Atlântica, fontes, bicas de água potável, além do zoológico reconhecido pelo Ibama.

 

O local abriga ainda um aquário, um teatro para apresentação de peças infantis, playground, pista de Cooper, lanchonetes, trenzinho, quiosques e cinco museus, entre eles o de História Natural, tombado pelo Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arquitetônico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo).

 

O Bosque dos Jequitibás fica aberto à visitação de terça-feira a domingo, das 6h às 18h, inclusive feriados. Nas segundas-feiras ele permanece fechado para manutenção.

Crédito: Rogério Capela

Crédito: Rogério Capela

Crédito: Rogério Capela

Crédito: Rogério Capela

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Crédito: Rogério Capela

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Crédito: Rogério Capela

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