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Diversidade é abordada com criatividade e interdisciplinaridade


14/09/2012 - 18:32

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Ingrid Vogl

 

"Menina bonita do laço de fita, qual seu segredo para ser tão pretinha?". A pergunta feita várias vezes durante a contação de história atiça o grupo de crianças de 3 a 6 anos do Cemei Lidia Bencardini Maselli, Os pequenos participam, com comentários e observações curiosas, da atividade com as professoras vestidas a caráter, com roupas coloridas que combinam com o ambiente alegre e caprichado da biblioteca usada em atividades diversas com as crianças.

 

A história do livro "A menina bonita do laço de fita", de Ana Maria Machado, fala sobre o coelho branco que se encanta com a menina negra e que tenta, de todas as maneiras, ter a cor dela, tomando café, chupando jabuticaba e até mesmo mergulhando em um balde de tinta preta. No fim, o coelho encontra uma coelhinha preta e com ela tem vários filhotes de diversas cores. A história fala sobre as diferenças entre as pessoas, a aceitação de cada indivíduo com suas características e o respeito pelas diferenças.

 

Foi justamente uma boneca de pano, como a menina do laço de fita, que despertou em uma das alunas a identidade e a aceitação de suas características. "Até então, ela sempre alisava o cabelo e queria que fosse como o meu, mas a partir do momento que a boneca negra, com os cabelos cacheados foi com ela para casa, a pequena passou a usar o cabelo ao natural, enroladinho como o da boneca de pano", conta a professora Luana Romero Lopes.

 

E com histórias assim, que falam sobre identificação e o despertar da consciência de respeito às diferenças, o Cemei e várias outras escolas da rede trabalham a diversidade e as questões étnicas e raciais.

 

"É muito fácil trabalhar questões de diversidade com crianças pequenas, porque elas ainda não têm o preconceito formado, como os adultos. A aceitação e ideias de respeito com os diferentes é muito maior e é mais fácil criar essa conscientização", completa a professora Luana.

 

Além da contação de histórias, os profissionais do Cemei também desenvolveram outras atividades criativas e inusitadas com as crianças para abordar, de forma lúdica, as questões étnicas e raciais, como desfiles com trajes característicos de tribos africanas.

 

Desfilando e encantando

 

Quando a música típica, animada e com ritmos fortes começa a tocar na sala, as crianças, em pares, se posicionam com a ajuda das professoras e desfilam, com desenvoltura ou timidez, as roupas coloridas e criativas em peles brancas, negras ou pardas; com rostos em todos os formatos, os olhos azuis, escuros ou puxados e cabelos lisos, crespos, claros e escuros. O sorriso sempre no rosto. Na paradinha, na extremidade do tapete vermelho, a mão na cintura não pode faltar.

 

"Meu pai é negro, minha mãe é branca, e eu e minha irmã somos assim e acho muito legal não sermos todos iguais", mostra o pequeno Guilherme, com o dedo indicador apontando o braço esticado, a pele branca e os cabelos claros.

 

"Aprendemos que não tem problema nenhum em sermos diferentes, isso é importante e é bem legal", diz Tamires Camargo de Oliveira, 6 anos, com todo seu conhecimento sobre o assunto. As crianças, em círculo, lembram com alegria que visitaram há pouco tempo a casa de um dos colegas para comer biscoitos típicos da África, em outra atividade que envolveu culinária e comidas típicas de países africanos desenvolvida pela equipe peda-gógica da escola.

 

A dança Mineiro Pau, com origens indígenas e africanas e que eram dançadas em cafezais com bastões que representam defesa e luta, também faz a alegria das crianças que, em roda, marcam o passo com pisadas firmes e palmas, batendo os bastões no chão no mesmo ritmo da música. Assim, os alunos trabalham não só mais uma dança típica de Minas Gerais, mas a coordenação e a integração.

 

Política pública

 

Após a formação de professores da rede municipal feita em parceria com o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), foi criado, em 2004, programa Memória e Identidade na Promoção da Igualdade na Diversidade (MIPID), consolidando todo o trabalho iniciado em 2001 e institucionalizando a discussão das questões raciais nas escolas, com investimentos em materiais pedagógicos e a ampliação do trabalho também para a educação infantil.

 

Atualmente, a formação de profissionais por meio do MIPID atende 60 professores nos cursos: "Sexualidade Humana, Gênero e Etnia: Diálogos com Educadores" e "Crianças Consumidoras: um olhar para a escola e a infância". Formações mais específicas, conforme a demanda das escolas, também são desenvolvidas ao longo do ano letivo. Todas as 200 escolas da rede municipal possuem pelo menos um educador que tenha passado pela formação.

 

"Para que o professor tenha uma formação efetiva e consiga passar os ensinamentos às crianças, é preciso que haja uma mudança na prática no olhar para a questão e postura do professor. Pela formação, o professor tem a chance de ressignificar as práticas e produzir novos materiais pedagógicos. Em geral, as faculdades de pedagogia não possuem em sua matriz curricular a questão racial", disse Sueli Gonçalves, coordenadora do MIPID.

 

Para que as ações do MIPID cheguem até as escolas, as atividades são desenvolvidas a partir de parceria com o programa Mais Educação, que tem como objetivo desenvolver atividades diversas com os alunos em horário contrário ao de sala de aula.

 

"A pedagogia sobre as questões raciais e a diversidade ainda está sendo formada. A proposta é trabalhar a igualdade racial de valor para todas as culturas que formam nosso país. Estamos dando formação para quem tomará conta do país no futuro", disse.

 

A doutora em psicologia da Universidade São Paulo (USP) e diretora executiva do CEERT, Maria Aparecida Silva Bento, acredita que incluir discussões sobre a diversidade e questões étnico raciais nas escolas é essencial para que as crianças conheçam a história e seu papel nos marcadores da nacionalidade formada por povos indígenas, africanos e europeus. "Faz parte das dimensões de todas as crianças ter a história dentro delas. Isso enriquece e é uma memória identitária, uma herança de todos nós e que faz parte da vida e de seu povo e para sua formação cidadã", explica.

 

Segundo Maria Aparecida, trabalhar a temática da diversidade com as crianças na escola é uma maneira de fazer com que o aluno reconheça seu legado cognitivo, psíquico e cultural. "Temos muito o que fazer ainda, pois se reconhecer requer questões psíquicas. Os elementos que aparecem na escola ajudam o indivíduo a se reconhecer, se conectar, tanto as crianças negras, quanto as brancas", concluiu.

 

Planejamento de trabalho

 

Antes de colocar em prática as atividades sobre diversidade com os alunos do Cemei Lídia Bencardini Maselli, a equipe da escola pesquisou sobre a história, dança, culinária e até aprendeu a criar bonecas de pano: tudo para embasar o trabalho pedagógico com os pequenos.

 

"A ideia de inserir no projeto pedagógico as questões étnicas e sobre diversidade surgiu a partir da lei que determina essa discussão em sala de aula. Pesquisamos, buscamos referências, compramos materiais e envolvemos toda a escola e também os pais dos alunos nessa questão. E quando fomos discutir o projeto, nós próprios paramos para refletir sobre a questão, antes de propor as atividades com as crianças", diz o diretor do Cemei, Marcus Venícius de Brito Coelho.

 

Todo o trabalho que continua a ser desenvolvido na escola acaba surtindo efeitos positivos. "Conseguimos trazer a questão racial, retomar e resgatar essa história. Agora os alunos sabem o que é ser negro, o que é ser branco e acabam se aceitando mais, eles entendem e sabem valorizar as diferenças", afirma Marcus Coelho.

 

Para os professores, os ensinamentos também são novos e vastos nas ações com as crianças. "A formação teórica temos na faculdade, mas pela primeira vez, trouxemos a prática para nossa profissão, nosso dia a dia. Também temos curiosidade, vontade, e da discussão, fizemos realizações e participamos de todo o processo", revela Luana Lopes.

 

"Com as vivências e as ações lúdicas sobre a diversidade, talvez as crianças não saibam a dimensão do que aprendem, mas o ensino está dentro delas, assim como toda as possibilidades de identificação", diz a professora.

 

Para o diretor, atividades que envolvem toda a comunidade são essenciais para a vivência e o conhecimento de profissionais, crianças e famílias. "Para a escola, é interessante discutir as relações e ampliar isso para os pais. É um trabalho em equipe, uma troca. Quando fazemos o diálogo, ele acontece de dentro para fora e a escola amplia seu trabalho, diz Marcus Coelho.

 

Africanidade

 

As manhãs de sábado na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Oziel Alves Pereira são disputadíssimas pelos alunos que fazem aulas de capoeira com o mestre David de Sousa Rosa. Há três anos, o capoeirista atua na escola. Inicialmente o trabalho foi como voluntário e agora como oficineiro do programa Mais Educação, que prevê ações diversas com os alunos em horário contrário ao de sala de aula.

 

Muito mais do que aprender a arte marcial genuinamente brasileira, o mestre discute com seus alunos fatos do dia a dia das crianças que permeiam as questões étnicas, "Através da capoeira, transmitimos a problemática do preconceito e a tolerância, sempre em meio aos jogos e brincadeiras. A história da escravidão, que tem tudo a ver com a história da capoeira, é ensinada aos alunos, para que eles reflitam e entendam inclusive sobre a formação do povo brasileiro", explica David Rosa.

 

"Sabia que antigamente as pessoas vestiam terno branco para jogar capoeira?. Até os anos 30 era proibido e eles jogavam escondido.", informa Victor Azevedo dos Santos, 13 anos, demonstrando que além dos movimentos da luta, ele também aprendeu sobre a historia da capoeira,que se confunde com a História do Brasil. Língua Portuguesa também está entre os assuntos da aula. Sabia que as palavras caçula e camundongo têm origem africana?

 

Valores, regras e o convívio são sempre praticados pelos alunos. "Muito do preconceito vem da desinformação. Às vezes a discriminação é involuntária por falta de conhecimento. O que procuro fazer aqui é, com informações, trabalhar o preconceito de várias formas, que muitas vezes vem de casa. O legal na capoeira é que todos estão com o pé no chão e são iguais", avalia o mestre David. Assim, a luta desperta a autoestima, a integração e o orgulho de ser capoeirista e brasileiro entre as crianças.

 

"Muito do que os alunos não sabiam, agora eles conhecem sobre o tema. Eles acabam criando uma consciência de que mesmo diferentes, eles são iguais. "Ser negro é muito mais que a cor da pele, é uma questão de identidade", disse o mestre, que acredita em um mundo melhor com pessoas que se respeitam.

 

Ensinamentos

 

Com um abraço caloroso, os alunos vão chegando e cumprimentando o mestre David. Nascido baiano, aos 5 anos, Victor Azevedo dos Santos se mudou com a família para Campinas e aos 8 conheceu a capoeira pelo tio. "Aqui na escola faço capoeira há dois anos. Adoro a luta e quero que outras pessoas a conheçam. Com ela, aprendi a ter mais respeito pelas pessoas e controle de minhas atitudes", ensina o menino com desenvoltura.

 

"Aqui eu conheço e aprendo", diz Caroline Beatriz da Silva Valeijo, 9 anos, que há um ano recebeu de surpresa a notícia de sua mãe que estava matriculada na aula de capoeira. "Minha mãe só me avisou. Eu vim e gostei", lembra.

 

Para Jailson Soares da Silva Junior, 10 anos, a capoeira foi um caminho para fazer novas amizades. "Luta é dentro da roda. Fora dela, o grupo tem uma grande amizade", diz, já se aquecendo para entrar na roda, que chama os alunos com o som alto e a cantoria das músicas que falam sobre a escravidão e a África. Para acompanhar o ritmo forte, berimbau, atabaque, agogô, surdo e pandeiro são tocados com habilidade por capoeiristas. O mestre canta a estrofe e as crianças repetem. "Sapo, sapo na lagoa...sapo, sapo na lagoa..."

 

Muitas mães fazem questão de acompanhar as aulas dos filhos aos sábados na Emef Oziel Alves Pereira e aguardam com paciência e cheias de orgulho o término da aula. "Meu filho era uma crianças reservada, quieta. Depois que começou a frequentar as aulas de capoeira, começou a se comunicar mais, se integrou com outras crianças e hoje se expressa muito bem. Até me ensina algumas coisas sobre a história que aprendeu na capoeira", se diverte Marli Maria dos Santos, 42 anos, mãe de Jardel, 8 anos.

 

Diversificando a matemática

 

Na mesma escola, o professor de matemática Wilson Queiróz fala sobre a diversidade e as questões étnico e raciais em sala de aula. Parece estranho? Mas é a maneira como o professor, com criatividade e inovação, ensina números ao mesmo tempo que fala sobre a importância dos alunos se identificarem, aceitarem e respeitarem.

 

O professor participou da criação do MIPID na rede municipal e até sua dissertação de mestrado fala sobre o assunto. "Essa questão deve ser tratada não como uma atividade pontual, mas sim no cotidiano, com ações interdisciplinares, pois assim os alunos começam a perceber, na história dos povos que formam o país, sua identidade", analisa.

 

Entre números e contas, o professor sempre se pergunta o que é possível trabalhar com os alunos em sala de aula. Questões como a jornada tripla da mulher e cotas em universidades podem ser temas das aulas de matemática. "Os números tem uma importância grande para falar sobre desigualdade racial", ensina.

 

Mesmo há pouco tempo na Emef, o professor já está discutindo e desenvolvendo atividades diversas como pintura de bonecos e elaboração de painéis, sempre com temáticas ligadas às questões da diversidade. Uma urna colocada na escola pretende receber as opiniões e sensações sobre o que o aluno sente e aprende sobre as atividades escolares e seu cotidiano.

 

"No começo, o aluno tem a sensação de que vai ouvir tudo o que já foi dito sobre esse assunto, mas no decorrer do processo, os próprios estudantes começam a entender as questões da desigualdade, o racismo e acabamos discutindo temas relacionadas a essas questões com fatos que acontecem no dia a dia do aluno", conta o professor.

 

Na maneira de conduzir as aulas, o professor percebe que os alunos tomam consciência do que são. "Busco sempre a melhor aula e faço o possível para inovar .Percebo que isso pode melhorar as relações e ajuda os alunos a desenvolverem suas potencialidades individuais. É importante se conhecer para se aceitar", disse.

 

Assim como o mestre David, Wilson tem a mesma opinião sobre o preconceito. "O medo ou a conveniência, a falta de material e a falta de informação impõem o racismo. A escravidão acabou, mas o racismo não", diz o autor de cordéis, Wilson também trata assuntos raciais em suas estrofes e mais uma vez, une várias disciplinas para falar sobre identificação e respeito.

 

Cabelo vem de dentro

e por isso não se esqueça:

por mais que você alise,

a consciência é crespa”

Crédito: Rogério Capela

Foto: Alunos de escolas da educação infantil aprendem sobre diversidade, respeito e convivência | Crédito: Rogério Capela

Alunos de escolas da educação infantil aprendem sobre diversidade, respeito e convivência

Crédito: Rogério Capela

Foto: Alunos de escolas da educação infantil aprendem sobre diversidade, respeito e convivência | Crédito: Rogério Capela

Alunos de escolas da educação infantil aprendem sobre diversidade, respeito e convivência