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Seminário 230 anos de Campinas

A Lagoa do Taquaral:A tradição Americana no Plano de Melhoramentos de Campinas de Prestes Maia

Professora Ivone Salgado da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e do Mestrado em Urbanismo-CEATEC, da PUC-Campinas

A recém criada revista “Muito +”,(1) que surge no contexto de consolidação da Região Metropolitana de Campinas, promoveu uma pesquisa sobre os símbolos da cidade e os resultados da mesma foram amplamente divulgados pela imprensa.

O objetivo da pesquisa era saber quais são os ícones da Campinas que completa 230 anos. Como resultado, o Parque Portugal, onde se encontra a Lagoa do Taquaral (Fig. 01) aparece como o lugar mais lembrado para as seguintes questões: O que você mais valoriza na sua cidade? O que mais representa, simboliza ou dá orgulho em Campinas?


Fig. 1. Vista da Lagoa do Parque Taquaral . Fonte: Capa da “ Muito+ A Revista da Região Metropolitana de Campinas” – Campinas, Editora MM Comunicação Integrada Ltda, Ano I, número 1, 29 de março de 2004.

Assim, este parque urbano aparece como o maior ícone da cidade dentre outros também lembrados, como a Catedral Metropolitana, a Estação Ferroviária, o Bosque dos Jequitibás e o Largo do Rosário.

Interessante perceber como todos esses espaços citados são espaços públicos, praças, parques ou lagos.

Sabemos que a Lagoa do Taquaral é parte de um complexo que começou a ser implantado há 32 anos (Fig. 02), na gestão do prefeito Orestes Quércia, quando se adquiriu da família Alves de Lima 33 alqueires que pertenciam à histórica Fazenda Taquaral. Hoje, este complexo possui inúmeros equipamentos culturais e desportivos, dentre os quais: a Concha Acústica (ou Auditório Beethoven), com capacidade para 2000 pessoas, o Museu Dinâmico de Ciência, o relógio solar, o Centro de Vivência dos Idosos, a Esplanada das Bandeiras, o Ginásio de Esportes, o Balneário Municipal, a pista de Cooper, o kartódromo, a pista de Aeromodelismo, a Ciclovia, a pista de patinação, além de quadras poli esportivas.


Fig. 2. Vista aérea da construção do Parque Taquaral. Fonte: Acervo CAV, FAU, PUC Campinas , In: LIMA, Siomara Barbosa Stroppa de. “As Áreas Verdes no Plano de Melhoramentos de Campinas”; Oculum Ensaios – Revista de Arquitetura e Urbanismo . Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC Campinas. Número 2, janeiro 2002, pg. 105.

Gostaria de lembrar que, este que se tornou o ícone de Campinas no alvorecer do século XXI, embora tenha sido implantado na década de 1970, foi concebido quando da elaboração do Plano de Melhoramentos para Campinas na década de 1930, plano este para o qual Prestes Maia faz um relatório técnico em 1935.

Como observa Siomara Barbosa Stroppa de Lima (2), em 1929, discutia-se na Câmara Municipal de Campinas, sobre a necessidade de contratação de um profissional para que se fizesse a remodelação de Campinas “de acordo com os preceitos do urbanismo”. Deste debate resultaria que, em 1934, seria contratado Prestes Maia para a elaboração do plano de urbanismo para a cidade.

Anhaia Mello, um dos defensores, na época, da necessidade de elaboração deste plano, argumentava que caberia ao urbanista a concepção de um “Master Plan” a luz do que determinava o “Standard City Planning Act” - uma lei federal norte-americana. (3) Podemos remeter, portanto, a filiação do urbanismo de Prestes Maia ao modelo americano.

Considero oportuno explorar esta questão no momento em que a Lagoa do Taquaral se transforma em ícone da cidade.

O chamado “City Planning” americano, da década de 1930, constitui-se como um campo disciplinar consolidado a partir de uma rica experiência do século XIX, em que a luta contra a práxis de um “laissez – faire” americano, dominado pela figura do “boss”, foi marcada por vários movimentos, como o “White Movement”, o “City Beautiful Movement” e o “Park Movement”. Todos esses movimentos urbanos resultariam na constituição da urbanística americana do início do século XX.

A chamada cidade do “laissez-faire”, anterior aos movimentos que levariam ao “City Planning” americano, foi marcada por uma livre exploração da mais valia imobiliária estando a gestão da mesma nas mãos do “boss” da construção sem que nenhuma autoridade (situação distinta do que ocorria na Europa, onde esta função estava nas mãos de um “prefeito” - lembre-se Hausmann em Paris) interviesse nem sequer nos controles parciais de ocupação do solo. Este personagem organizava a massa de imigrantes introduzindo-os no ciclo produtivo e depois na estrutura social oferecendo serviços urbanos mínimos em troca de uma lealdade que se materializava no voto.

Contra esta situação, iniciou-se uma série de movimentos reformadores progressistas sendo o movimento “White City” a primeira mobilização neste sentido baseada em um controle coordenado da cidade e destinado a produzir resultados nitidamente opostos à práxis da cidade do “laissez-faire” americano. Este movimento também se caracterizou pela defesa de uma ação coordenada de funções destinadas a tornar a cidade higiênica - como a pavimentação e a iluminação das ruas, o abastecimento de água e a rede de canalização de esgoto, a coleta de lixo, o controle dos incêndios, ou seja, a higiene em geral deveria ser tratada pelas regras ditadas pela ciência e não pelo “boss”.

O movimento “White City” seria o precedente de um outro movimento: o “City Beautiful”, de inspiração “Burnhamiana”, ou seja, nitidamente marcado pela obra de Daniel Burnham. Para este arquiteto e para muitos americanos da época, a verdadeira “City Beatiful” era a Paris de Napoleão I e III, enquanto nos EUA era Washington.

Segundo Frederick Law Olmsted, o movimento “City Beautiful” se resumiria em alguns objetivos operativos, entre eles: a dimensão e forma das ruas; a dimensão, caráter dos edifícios e sua localização em relação recíproca com os espaços públicos; a disposição das zonas sem edificação; e o tratamento dessas zonas sem edificação com eventual presença de ruas, com distribuição dos objetos emergentes sobre elas, com árvores, postes, valetas, etc.

Podemos dizer que nos planos de Prestes Maia para São Paulo e para Campinas o “City Beautiful” é uma inspiração. Todavia é importante observar que o movimento pode ser considerado mais como uma metodologia particular de desenvolvimento de um plano, não podendo a ele ser atribuído ainda um caráter de “City Planning”. Ele revela mais uma obra de Desenho Urbano – “Town Design”, organizada e coordenada, mas na qual ainda há um nítido significado lingüístico classista.

O movimento decisivo que precederia a formação do “City Planning” – Planejamento Urbano americano do início do século XIX, momento em que a intervenção na cidade é pautada por princípios científicos, seria o “Park Movement”.

O maior protagonista deste movimento foi Frederick Law Olmsted e é o destaque sobre suas concepções de parque e de sistemas de parques, assim como sobre as suas propostas para a intervenção na cidade que eu gostaria de chamar atenção nesta comunicação.

Inicialmente, podemos destacar a obra de Olmsted para o “Central Park” de Nova Iorque como um momento decisivo na formação deste movimento. As soluções formais de Olmsted para o “Central Park” estão ligadas à linguagem pitoresca inglesa. Mas, é nas relações que o parque instaura com a cidade que o seu projeto pode ser considerado a pedra angular do “American Planning”. É visível no projeto do “Central Park” a intenção de encontrar momentos e fórmulas de mediação entre a área do parque e a cidade circundante.


Fig. 3. Central Park – Nova Iorque . Fonte: BEVERIDGE, Charles E. e ROCHELEAU, Paul. Frederick Law Olmsted – Designing the American Landscape. New York : Rizzoli, 1995. p.59.

Olmsted estava profundamente convencido da inevitabilidade do “valor progressivo do desenvolvimento urbano” e, referindo-se ao Central Park, Olmsted diria: “nosso país entrou numa fase de desenvolvimento na qual o bem estar depende da comodidade, segurança, ordem e economia da vida das grandes cidades. Ele não pode prosperar independentemente disso”. (4) Sobre esta convicção emerge a questão da recuperação da natureza.

Para Olmsted, a natureza não é somente um instrumento para conseguir uma maior eficiência das melhores condições higiênicas, que por si só são o sinônimo de uma consciência civil e social mais madura, mas é também o ponto de apoio para reconstruir a unidade global de um ambiente degradado.

Assim, podemos dizer que o modelo do parque completa um dos maiores vazios da conquista da “Democracia Americana”, contribuindo para realizar um meio ambiente (“environment”) natural e orgânico.

Para Olmsted o parque é também uma opção urbanística que se justifica em face aos argumentos de ordem econômica-funcional, sendo que este segundo aspecto não está em absoluto separado, mas ao contrário, integrado e dependente das considerações ético-ideológicas sobre a função social do parque.

Olmsted prepara em 1865 um relatório para a ordenação do “Brooklyn Park”, onde ele acentua decididamente o caráter de intervenção urbanística global que deveria possuir este projeto. A ordenação interna do parque é colocada em segundo plano. Se comparado com o “Central Park”, observamos que a atenção agora se volta para a estrutura urbana: o “Brooklyn Park” se estende através do sistema viário que determina o interior da cidade, adquirindo um significado de vínculo urbanístico. Em outro relatório de Olmsted, de 1879, sobre o mesmo parque, estão contidas as indicações para a reorganização da estrutura viária através da criação de um sistema de “parkways”. Ambos determinam a configuração do sistema viário, estruturando o futuro desenvolvimento urbano.

Estas novas concepções urbanísticas são aplicadas em várias cidades americanas, onde Olmsted está presente como projetista e colaborador, como em Nova Iorque, Chicago, São Francisco, Newark, Newport, Albany, Boston, Cincinatti, Buffalo e outras.

Olmsted elabora vários campi universitários, dos quais ele é o criador do tipo, tais como os de Standford, Berkeley, Harvard, etc., e também colabora com os maiores expoentes do movimento sobre parques nos EUA, dentre eles os mais famosos arquitetos do período.

Um destes colaboradores e discípulos será Charles W. Eliot, cuja obra amplia o núcleo dos parques urbanos previstos por Olmsted e inova em instrumentos urbanísticos e legislativos na constituição de um sistema de parques integrados em escala territorial. Surgem, neste momento, os grandes parques regionais americanos e as primeiras reservas florestais.

No final do século XIX, os maiores protagonistas do “Park Movement” desaparecem, entre eles Olmsted, em 1895, que se retira da profissão.

Fica evidente o papel fundamental de Olmsted na construção da nova disciplina “City Plannig” (planejamento científico da cidade) que faria eco em nossas cidades brasileiras, com especial destaque para o Plano de Melhoramentos de Prestes Maia para Campinas que incorpora a idéia de sistemas de parques como um elemento estruturador do tecido urbano, propondo, como parte integrante deste sistema, a construção do Parque Taquaral. (Fig. 04)


Fig.4. Sistema de parques no Plano de Remodelação da Cidade de Prestes Maia de 1829. A planta apresenta anotações manuais assinadas por Prestes Maia. Documento apresentado por Luíz Cláudio Bittencourt, pertencente ao Arquivo da Câmara Municipal de Campinas. Fonte: BITTENCOURT, Luiz Cláudio. “Campinas Centro Histórico: Rupturas e (Dês) continuidades”; Oculum Ensaios – Revista de Arquitetura e Urbanismo . Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC Campinas. Número 2, janeiro 2002, pg. 135.

É importante destacar que, para Olmsted, a constituição dos parques era a primeira escala de uma intervenção mais complexa de planificação física e social. Olmsted considera os parques como demonstração da saúde mental do povo e instrumento de luta contra a congestão e instrumento de redistribuição de riqueza.

Olmsted acreditava ainda que o parque era o símbolo de uma nova vida comunitária e emergiria como lugar de alegria, onde fosse possível cultivar todas as atividades espirituais impedidas na cidade. Para Olmsted, o parque substituía o edifício religioso que havia simbolizado o espírito unitário da comunidade primitiva. A cidade, organizando-se em torno de seus próprios espaços verdes, voltava a encontrar a unidade desfeita, reconstruindo um símbolo laico da comunidade perdida. Além disso, para Olmsted, o parque também era um sinônimo de justiça social e de participação democrática: as classes inferiores não estavam mais segregadas na cidade, podendo gozar da natureza igualitariamente acessível, ou seja, para Olmsted, o parque era um instrumento de nivelação social e de educação do povo para a responsabilidade coletiva do bem estar.

A título de conclusão, lembraria que hoje a Lagoa do Taquaral se transforma no maior ícone da cidade de Campinas, como sonhou o visionário Olmsted. A concepção de parques do urbanista entrou na agenda do planejamento das grandes cidades do século XX. Hoje, no momento em que nos defrontamos com um moderno “laissez-faire” dos produtores do espaço na busca da mais valia imobiliária, movimento no qual os “bosses” modernos atuam desenfreadamente depredando o patrimônio cultural e ambiental do município, em paralelo a movimentos sociais de reformadores urbanos em defesa do meio ambiente, a construção de um grande parque regional na APA – Área de Proteção Ambiental de Campinas, através de uma atuação incisiva do poder público, poderia dar continuidade a esta tradição.

Referências Bibliográficas:

(1) SILVA, Neide Maria da. “Ícones da Metrópole”. In: Muito+ A Revista da Região Metropolitana de Campinas – Campinas, Editora MM Comunicação Integrada Ltda, Ano I, número 1, 29 de março de 2004. Pgs 23 a 29.

(2) IMA, Siomara Barbosa Stroppa de. “As Áreas Verdes no Plano de Melhoramentos de Campinas”. In: Oculum Ensaios – Revista de Arquitetura e Urbanismo . Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUC Campinas. Número 2, janeiro 2002, pgs. 104 a 129.

(3) Conforme nos informa Siomara Barbosa Stroppa de Lima, que mostra em sua pesquisa as principais diretrizes presentes no texto americano e no argumento de Anhaia Mello.

(4) OLMSTED, Frederick Law. “Passages in the Life Unpractical Man”. I: DAL CO, Francesco (et. Alli) La Ciudad Americana: de la guerra civil al New Deal”. Barcelona, Gustavo Gili, 1975, pgs 168 a 169.

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